“Édipo Rei” de Sófocles e a interpretação de Freud
Written by Yves on maio 7, 2009
Ontem, dia 6 de maio, estudava para uma prova de psicologia que ocorreria hoje pela manhã. A questão que iria ser cobrada na prova era a seguinte: “Por que Freud se interessou na obra de Sófocles para provar suas teorias sobre as psiconeuroses?”. Ao procurar por material sobre o assunto na internet, surpreendi-me pelo fato de não haver nenhum site que tivesse abordado diretamente este assunto. Há muitos que tratam da obra em si, sobre complexo de Édipo e, logicamente, sobre Freud, mas nenhum que tivesse traçado diretamente os paralelos que Freud fez ao ler a obra. Então, frente à inexistência ou dificuldade de se achar tal material, ocupei-me em fazer eu mesmo. Sei que é um texto pequeno e que provavelmente não abrange todas as interpretações possíveis da obra na visão da psicanálise, mas pelo menos serve como introdução. Há um resumo e logo após a interpretação. Perdoem-me por qualquer erro de português, não cheguei a revisar o texto. Críticas (produtivas, por favor) são bem vindas.
Download do texto: aqui.
Segue o texto na íntegra:
Como introdução, vale a pena explicar os antecedentes da lenda em que Sófocles se inspirou para compor o Édipo Rei, obra teatral de grande valor cultural para a humanidade. Laio, filho de Labdaco, nutrira em sua juventude uma paixão mórbida por Crísipo, filho de Pêlops. Laio raptou Crísipo e foi amaldiçoado por Pêlops, que desejou a Laio o castigo de morrer sem deixar descendentes. Posteriormente Laio casou-se com Jocasta, irmã de Creonte, e tornou-se rei de Tebas. Laio tornou-se pai de um menino, apesar de um oráculo haver-lhe anunciado que, como castigo por seus amores antinaturais com Crísipo, se nascesse um filho dele e de Jocasta, esse filho o mataria. Para tentar fugir à profecia do oráculo, mandou Jocasta dar o recém nascido a um dos pastores de seus rebanhos, após perfurar-lhe os pés e amarrá-los. A ordem foi abandoná-lo no monte Citéron para morrer naquela região inóspita, na esperança de fugir assim à profecia divina. O pastor, entretanto, movido pela piedade, salvou a vida do filho de Laio e de Jocasta e o entregou a um companheiro de profissão, que costumava levar os rebanhos de Pôlibo, rei de Corinto, às pastagens situadas no vale do Citéron. Esse pastor levou o menino, chamado Édipo em alusão a seus pés feridos e inchados, a seu senhor, o rei Pôlibo, que não tinha filhos e vivia lamentando-se por isso. Pôlibo e sua mulher Mérope criaram Édipo como se fosse filho deles. Quando Édipo chegou à maioridade, foi insultado por um habitante de Corinto, embriagado, que o chamou de filho adotivo. Diante dessa revelação Édipo se dirigiu sozinho a Delfos para consultar o oráculo de Apolo a respeito de sua ascendência. O deus nada lhe disse quanto à sua pergunta, mas revelou-lhe que ele um dia mataria seu pai e se casaria com sua própria mãe. Édipo, supondo que Pôlibo fosse seu pai e Mérope fosse sua mãe, resolveu não voltar jamais a Corinto. Naquela época os habitantes de Tebas estavam alarmados com a Esfinge, que vinha devorando os tebanos, incapazes de decifrar os enigmas propostos pelo monstro, pondo em perigo a cidade. Em sua fuga ele passava pelos arredores de Tebas quando, em uma encruzilhada de três caminhos, avistou um carro em que vinha um homem idoso seguido por criados. O homem gritou-lhe insolentemente que deixasse o caminho livre para seus cavalos passarem, e um dos criados da comitiva espancou Édipo. Este reagiu e matou o homem que vinha no carro, sem saber que se tratava de Laio, seu pai, e os criados que o acompanhavam, à exceção de um, que fugiu. Em seguida Édipo chegou a Tebas e, passando pela calamitosa esfinge, decifrou o enigma que esta lhe propôs. A Esfinge desapareceu e Tebas, salva daquele flagelo, fez de Édipo o rei da cidade e lhe deu em casamento Jocasta, viúva de Laio e, portanto, mãe de Édipo. Estavam assim realizadas as duas predições do oráculo, embora Édipo e Jocasta permanecessem na ignorância da imensidade de seu infortúnio. Por muitos anos Édipo governou Tebas como um grande e valente rei; de seu casamento com Jocasta nasceram duas filhas e dois filhos, Antígona, Ismene, Polinices, Etéocles, que cresciam em meio à paz e à prosperidade aparentemente presentes no palácio real. Porém os deuses enviam uma peste à cidade de Tebas, pois os homens estavam desobedecendo ao Oráculo. Édipo, preocupado com a situação, envia seu cunhado, Creonte, ao Oráculo de Delfos para saber qual era a causa da peste que assolava a cidade de Tebas. Neste ponto começa o “Édipo Rei”. A resposta do Oráculo foi que a cidade estava naquela situação por causa da morte de Laio e que para solucionar o problema o assassino deveria ser descoberto e punido. Porém, Édipo não sabe que Laio era seu pai e que o tinha matado na encruzilhada. A obra gira em torno deste crime e nos esforços feitos para elucidá-lo. A descoberta resulta quase inteiramente da insistência do próprio criminoso. Édipo então manda seu cunhado Creonte buscar o adivinho Tirésias, que com medo de revelar que era Édipo o assassino, resiste em responder. Depois de ser muito insultado por Édipo, chamado de traidor da cidade, Tirésias não hesita em revelar quem é o verdadeiro assassino. O assassino era o próprio Édipo. Este não crê nisto, mas acredita que Creonte e Tirésias estão armando um golpe para tirá-lo do poder. Assim, Édipo de investigador se torna investigado. Ao longo da tragédia, Édipo descobre, por conta do mensageiro vindo de Corinto, que Pólibo e Meréope não eram seus pais, o que acelera a descoberta da verdade por trás dos fatos.Não suportando a verdade de ser um parricida incestuoso, Édipo fura os próprios olhos como uma autopunição e é expulso de Tebas. Jocasta comete suicídio.
Na obra acima resumida sucintamente, Freud encontrou fatos que julgou como sendo provas para sua teoria sobre o psiquismo humano. Na obra há a presença marcante da figura do destino por três vezes, a primeira quando Laio fica sabendo que seu filho o mataria, a segunda quando Édipo recebe a profecia de que mataria seu próprio pai e casar-se-ia com sua própria mãe e a terceira quando Creonte, ao visitar o oráculo de delfos, toma conhecimento de que para acabar com a peste que assolava Tebas naquele momento era necessário que o assassino de Laio fosse punido e expulso de Tebas. O destino presente na obra seria, na concepção de Freud, a energia amorosa da qual ninguém pode escapar, apesar de toda tentativa e esforço feitos neste sentido. Édipo mata seu pai não só porque foi atacado pelo criado de seu progenitor, mas também, metaforicamente, por conta do ódio que tinha inconscientemente pelo mesmo, sentimento presente em todas as pessoas no início da vida. O fato de Édipo casar-se com Jocasta representa, metaforicamente, a realização do desejo inconsciente pelo primeiro alvo do amor no início da vida infantil: a mãe. Esta situação paradoxal do início da vida psíquica de uma pessoa, amor e ódio pelo próprio pai, e o desejo pela própria mãe devem ser superados no desenvolvimento natural do indivíduo, ou será fonte de futuras neuroses e fixações, que são bem representadas indireta e metaforicamente na dita obra de Sófocles. Freud surpreendeu-se ao constatar que os gregos já haviam percebido séculos atrás o mesmo fato que ele julgara que descobrira: o ódio pelo pai e o desejo pela mãe no início da vida de um homem. Por conta disto, nomeou esta situação, inerente a todas as pessoas, de “complexo de Édipo”, em alusão à personagem da peça de Sófocles. Vale ressaltar que o complexo de Édipo também se aplica às mulheres, porém os papéis de ódio e amor são invertidos, ou seja, a mãe é odiada e o alvo do desejo é o pai. O paradoxo do complexo de Édipo se caracteriza pela seguinte situação: a filha procura a todo custo se parecer com a mãe a fim de atrair a atenção do pai, e neste sentido aproxima-se da mãe, porém odeia a mãe por ser uma competidora pelo afeto do pai. A título de exemplo: uma menina passa o dia com a mãe, comportando-se exemplarmente, porém, quando o pai chega em casa à tarde, ela torna-se irritada e assume comportamentos agressivos, não quer deixar a mãe a sós com o pai, procura fazer tudo para chamar atenção e interferir. Desta forma ela tenta impedir que o pai troque afeto com a mãe, por outro lado ela teve aquele ótimo comportamento durante o dia, pois estava tentando se parecer com a mãe a fim de atrair atenção do pai, isto pode ser observado, por exemplo, quando a menina brinca de casinha, usando as roupas e sapatos da mãe, a maquiagem, enfim.
Outro detalhe relevante de se destacar na obra de Sófocles é o papel análogo ao de um psicanalista exercido na obra por Tirésias, o velho adivinho designado por Édipo para esclarecer as circunstâncias da morte de Laio. Tirésias é a personagem que fará com que Édipo tome conhecimento da realidade por trás dos atos cometidos por ele próprio, neste sentido ele cumpre um papel análogo ao de um psicanalista, uma vez que este tem o papel de fazer com o que o paciente entenda as motivações por trás de sua vida psíquica.
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4 Responses to ““Édipo Rei” de Sófocles e a interpretação de Freud”
Embora já consagrada, a escolha de Édipo para categorizar esse tipo de situação é muito infeliz, porque força uma leitura, através de como você mesmo disse, essas diversas “metáforas” necessárias para se chegar ao pensamento freudiano.
Eu sugiro a leitura do texto “Édipo sem complexo”
Um abraço
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paulinha respondido em maio 28th, 2010 9:49 am:
me ajude por favor, gostaria de saber qual os pontos de contato entre a teoria de Freud e a historia de Sófocles
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By Marcos on set 17, 2009
Eu concordo com o que você falou, realmente acho que Freud força a barra com essa interpretação. Mas de qualquer maneira o material é válido pra quem procurar pelo assunto, pela escassez do mesmo.
Obrigado pela sugestão, darei uma olhada com certeza.
Abraço.
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By Yves on set 19, 2009
Muito bom o seu texto! Parabéns..
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By Larissa on mar 5, 2010